O bom cuspidor

Estacionado em frente à estação de Campanhã, no Porto, reparei num rapaz, bem apresentado (estilo casual), que, após sair do carro de alguém, e mesmo ao passar em frente ao meu carro, decidiu cuspir para a via pública. Vi tudo a 2 metros de distância. Sem pestanejar, olhar em redor, sequer virar a cabeça para baixo, ou denotar qualquer tipo de constrangimento, mandou uma grande cuspidela numa curva frontal para o chão. Foi tão natural como respirar e, não fosse o facto de não ter o taco de baseball comigo, seria a oportunidade perfeita para o agarrar pelo cachaço, esfregar-lhe o focinho na solha e berrar “não voltas a fazer isso! também cospes para o chão de casa?!?”. É habitual fazer-se algo do género aos animais quando não respeitam o dono e fazem as necessidades num tapete novo lá de casa, mas ao contrário deste animal em campanhã, um cão certamente aprenderia alguma coisa com a reprimenda e, da próxima vez, respeitaria os tapetes.

Porque me apetece escrever, e não trabalhar durante algum tempo, deixo alguns comentários a este e outros vícios sociais que não suporto.

É extremamente comum ver-se um homem de certa idade puxar das entranhas para presentear os paralelos da via pública com um visco verde, e é quase uma instituição pública a estúpida aceitação de que “os portugueses são assim”. Como quem diz que se somos assim não é preciso mudar, é uma característica nata do nosso caloroso povo. Aliás, cheguei a presenciar concursos pontuais de escarradelas em comprimento com os meus amigos de infância. Havia vencedores natos, com uma proficiência escarral impecável. Nasce connosco, todo bom português nasce a saber cuspir, coçar os t*mates e urinar na rua.

Quantos de nós já tiveram de se desviar de cuspidelas no pavimento? Ou até de se precaver quando ouvimos aquele som de “rrrrrrrrkkk”, imediatamente antes do acto, descobrir o mais rapidamente possivel quem vai ser o autor da cuspidela e colocarmo-nos a salvo de eventuais perdigotos. E parece-me que a falta de educação não escolhe idades, ou melhor, as idades é que não escolhem a educação.

Fiz uma sondagem com alguns colegas de trabalho, numa amostra significativa de..bem, 2 pessoas. Um deles comentou que o faz apenas em casos extremos, mas que evita fazê-lo. O outro colega inquirido disse que o fazia, mas sempre com atenção às pessoas em redor, com discrição, e apenas em último caso. Mesmo a conduzir, toma sempre em atenção se vêm carros atrás (faz-me lembrar um amigo que diz que atirar beatas para o chão, só de carro, e para o lado da estrada, sendo assim impossível que a dita beata deslize para a berma e cause um incêndio..enfim). Uma das razões apontadas, também, dizia ele, é que temos de ter em consideração os fumadores, que ganham mais muco que o resto dos mortais - sim, temos de desculpar os fumadores, porque, coitados, ganham muco, têm problemas, têm de cuspir pela sua saúde.

São perspectivas do mesmo problema, embora sinceramente, a ouvir os argumentos pró cuspidela, estivesse a pensar que se conseguisse dar o primeiro pontapé com força e colocação suficiente, não teria de me desviar do que poderia vir a seguir. Eu não cuspo para o chão, e abomino quem o faz. Que por vezes fique com a garganta arranhada e me apeteça fazê-lo, claro, mas também por vezes me apetece insultar pessoas na via pública, e não o faço por deferência para com os restantes inocentes. Convém ter alguma educação para com os que nos rodeiam, para os sapatos dos que nos rodeiam e consciência de que, feliz ou infelizmente, todos partilhamos a rua, a confeitaria, os transportes públicos e a vida em geral.

Quanto ao cuspidor de campanhã, espero que um dia uma rabanada de vento o faça levar com a sua própria solha nos olhos, ou que caia em cima de uma cuspidela de outra pessoa, daquelas que parece que foram retiradas das entranhas de algum animal alienígena. Grande porco.

PS - Na China é proibido cuspir em alguns locais porque, como cá, também parece ser desporto nacional. Os chineses cospem muito, em qualquer lado, e muito alto. Profissionais, portanto.

Ia escrever sobre mais um tema ou dois, mas fica para uma outra altura nesta nova categoria de “Não suporto”. Tenho alinhados artigos de ódio sobre:

- Urinar em via pública, bosta de cão, Nuno Markl (e mais uns quantos cromos da rádio), televisão, etc. As possibilidades são infinitas.

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