Este sábado fomos à sessão de encerramento do Fantasporto 2008. Pensávamos que seria apenas a apresentação do filme “The mist”, mas acabou por ser muito mais. Mesmo comprando os bilhetes à tarde, já só se arranjou na 2ª fila, o que não foi mau, foi mesmo perto das celebridades. Isto deu direito a ficar atrás de várias fotos tiradas a alguém famoso que estava à nossa frente, provavelmente com o dedo no nariz ou a fazer alguma cara feia, mas enfim…
O ambiente estava muito agradável, tirando uns incómodos monstros à portuguesa, patrocinados pela Super Bock, que insistiam em assediar as pessoas. Existia de tudo, de universitários cinéfilos com cordões desapertados, madames de traje de gala - provavelmente porque de seguida iria haver o Baile dos Vampiros, ou porque gostam de brilhar no escuro, não sei -, algumas celebridades como o grande Fernando Lopes, Maria João Seixas, Ana Padrão e um ou outro que não conheço, mas que dizem ser famoso/a, anda com alguém famoso/a ou pensa que é.
Antes de qualquer tipo de acção, fervi de imediato, vindo a saber mais tarde que foi cedo demais, por ter uma instalação sonora no palco, mesmo em frente à minha linha de vista para o ecrã. Só minutos depois descobri que servia para uma actuação dos Blasted Mechanism…actuação…um tipo com a cara dentro de uma malga de água a fazer sons guturrais, um de gongo, e um com um rádio mal sintonizado a fazer ruídos com estática…deixem-me tentar novamente…os Blasted Mechanism abriram as hostilidades com uma criativa actuação, com o human underwater synthesizer, sons electrónicos e um vídeo andrógino sobre a fusão de corpos e de sexos (sentido metafísico, não físico). Tudo bem, até foi interessante, mas 15 minutos daquilo enfastia qualquer pessoa. Para os Blasted Mechanism: encurtem as actuações ou o pessoal começa a fazer notas mentais pouco agradáveis sobre vocês.
De seguida passou-se à entrega de prémios. Entrega a qual faltou paixão e entretenimento, e terrivelmente sem cor. Os prémios eram apresentados em fila para a mercearia, com os premiados presentes a darem um salto ao palco, umas palavras de agradecimento, e um salto abaixo dele, isto quando havia quem receber, caso contrário passava-se de imediato, quase sem nos apercebermos, à categoria seguinte. Na minha opinião, também, os pequenos excertos de cada filme premiado podiam ter sido muito melhor escolhidos. Em alguns, parecia distintamente que os segundos passados foram escolhidos de forma aleatória, sem mostrar absolutamente nada sobre o filme. Para o ano, não deixem a(s) mesma(s) pessoa(s) fazer os cortes. E se entretanto alguém souber quem os fez este ano, dêem-lhe(s) um empurrão por minha conta.
Um momento nostálgico foi a subida ao palco de um grupo de pessoas que incluia a Kelly Lebrook, a mulher que tirou do sério o Gene Wilder no filme “A mulher de vermelho”, há 24 anos atrás. Agora algo longe da sex-symbol dos anos oitenta, mas de qualquer forma, uma surpresa agradável. Tive pena de não ver o Max von Sydow, que também por lá passou.
No final da entrega dos prémios, Mário Dorminsky fez o discurso da praxe - agradecimentos suficientes, menções aos membros pagantes do evento, patrocinadores, e umas quantas críticas a quem bem as merece, como o pobre estado de espírito do Estado Português em relação à cultura. Portuense ferrenho, ou assim me pareceu, o Mário Dorminsky falou da preferência indecente pelo sul, abandonando as iniciativas culturais nortenhas ao patrocínio privado. O Fantas é o maior festival de cinema português e mesmo assim fica com financiamento em falta. Como foi mencionado no discurso, os apoios a este evento não são tantos como seriam desejados, ficando a maior monta para os eventos que realmente interessam à sociedade tacanha que temos por aqui, que só vê futebol, novelas e toni carreira.
A determinada altura, por cortesia, Mário Dorminsky passou a mensagem, ou parte dela, ao público estrangeiro, em inglês. Admiro a tentativa, mas poderia ter dado o texto a rever a algum entendido (à professora de inglês residente, Beatriz Pacheco Pereira, uma dos outros 2 directores do Fantas, juntamente com António Reis), e talvez a ler a alguém mais versado na língua inglesa.
Umas horas depois a nos termos sentado, passam o filme “The mist”, para o qual deixo uma crítica amanhã que agora vou tratar de almoçar.
No exterior do Rivoli, ainda estão aparcadas as enormes letras do musical de La Féria “Música no coração”, de luzes apagadas, é certo, mas perfeitamente vísiveis e a estragar o ambiente de um festival marcadamente de horror (fantasporto vs. música no coração, a dicotomia do terror?). Provavelmente ninguém se interessou ou deixou incomodar por aquilo, mas num festival cujo apanágio é contar os galões de sangue debitados em cada filme, ter à entrada umas letras de 3 metros onde se lê “música no coração”, mancha um pouco o entusiasmo, não?
Este ano, para meu gáudio, embora não tenha ido ver nenhum (mas tenho todos em casa e já vi uma boa parte), passaram imensos filmes de Takashi Miike, um dos meus realizadores de eleição do cinema japonês. Realizador de Ichi the Killer, Fudoh - the next generation, Zebraman, One missed call (a que os americanos tinham de deitar os dedos pegajosos e fazer uma versão rafeira), Visitor Q, e tantos, mas tantos outros filmes que não saem da minha pele. A categoria Orient Express está a melhorar aos poucos, mas podiam trazer cá alguns destes realizadores, actores e actrizes que povoam o nosso imaginário (distorcido, é certo). Claro que, como referi acima, sem capital, não há festa.
Apesar de todo o esforço, que nem começo a imaginar o quão díficil seja organizar algo assim, ainda acho que existe espaço para melhorias. Por considerações certamente comerciais, de patrocínios, de publicidade e financiamentos, as preferências de filmes são tendencialmente europeias, e espanholas em particular. Não posso criticar as escolhas sem saber de factos, posso apenas sugerir e opinar.
Fantas, agora só para o ano.

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