Tivemos a oportunidade de visitar uma exposição desta pintora na Biblioteca Almeida Garrett, simpaticamente guiada pela autora, o que se tornou numa experiência muito interessante.
Senhora simpática, acessível, pinta e tem um ou dois admiradores espalhados por esse mundo fora. Não é o meu estilo de pintura, mas após ver alguns exemplos da obra desta pintora, tenho de admitir que me dá uma certa sensação de conforto, de suave lugar comum. Os temas das obras são estranhamente populares, retirados da vivência e do dia a dia da autora, desde o rural, acontecimentos noticiosos, a uma fusão constante da figura feminina com animais. Porquê? Não sei. Posso supôr, mas interessaria?
Durante a visita, a pintora descrevia um certo quadro que continha uma balança com um corpo de mulher de um lado a contrapor um de homem do outro. A balança tendia para o lado da mulher. Ela própria não conseguiu explicar a razão de tal peso feminino, não que interessasse, cada um interpreta à sua maneira, mas simplesmente ela disse que não sabia porque tinha pintado o quadro daquela forma. Não existia razão para tal desnível. Por vezes não tem de haver razão.
Uma discussão recorrente é a da interpretação de obras de terceiros, sejam poemas, quadros ou mesmo actos. A natureza humana, ainda mais nos dias actuais saturados de informação, tenta desesperadamente explicar sentimentos, interpretar canções, textos e quadros, talvez para se precaver do inesperado, para ganhar uma falsa segurança na explicação. O poema tem a métrica x, com aquela palavra de 5 letras naquele sítio porque o autor estava a passar por um período mau/bom/mais ou menos, e porque a lua estava alinhada com 3 planetas do sistema solar. Que prepotência da nossa parte sequer julgar que podemos interpretar os sentimentos de alguém, ou que conseguimos deduzir o que o autor sentia quando escreveu o que escreveu. Não é tão mais belo saber o que nós próprios sentimos ao ler/ouvir/ver qualquer coisa? As cores de uma canção, o som de um quadro, o tacto de um poema, o que significa para nós, não para quem o escreveu. A arte não é um documentário.(*)
Sobre a exposição, que deveria ser o tema do post: Alinhada num espaço agradável, encorajo vivamente a que visitem, ainda mais sendo no Palácio de Cristal, um dos mais bonitos locais do Porto. Exceptuando a capa publicitária que algum desgraçado decidiu permitir que colocassem no palácio. A cúpula está totalmente coberta por uma tela publicitária a um banco. Quando começar a ver estátuas patrocinadas por uma qualquer empresa de vassouras, que já faltou mais, tiro o pó à armadura e enfrento o sistema, e espero ver-vos fazer o mesmo.
“Um quadro é sempre o lugar da minha maior intimidade. Estou lá toda. Tudo o que absorvo do exterior passa primeiro por dentro de mim, pelas minhas vísceras, pela minha cabeça. E depois sai e fica numa tela.”
Graça Morais, obrigado.
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A Exposição pode ser visitada de terça a domingo, entre as 10 horas e as 12:30 horas e entre as 13:30 e as 17:30 horas. Estará patente na Galeria do Palácio até 30 de Abril. A entrada é livre.
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(*) PS - As minhas bases são de matemática, de ciências exactas, sendo por natureza curioso e constantemente tentado a explicar ou entender quase tudo. Deixo um reparo a ciências como a psicologia, que de alguma forma tentam entender/estudar o comportamento e sentimentos humanos. Não desdenho a validade de tal ciência, nem sequer a sua provável exactidão em quantificar comportamentos, mas apenas ressalvo que na arte, objecto do post, talvez a procura de uma razão, a explicação ou tentativa de, devessem simplesmente ser postas de lado e que deixassemos outras coisas tomarem o comando.

Em primeiro lugar queria criticar que no teu post nao esta escrito nada de especial nao aborda quase nenhum conteudo. Depois de um titulo tao fabuloso “visita guiada na biblioteca almeida garrett” pela autora limitas te a dizer basicamente que estives te com ela, nao há referencias a nada, obras só a uma que por coicidencia esta no panfleto.
Seguidamente nao percebo novamente o interesse de falar das interpretações do publico quando nao existe nenhuma conclusão.
Por fim quanto ao patrocinio do banco, uma vez que no teu blog refere que as tuas bases são de matemática, deverias saber que para financiar exposições são sempre indispensaveis apoios.
Pelo comentário, talvez estivesses à espera de uma crítica profunda sobre a obra da Graça Morais. Não era de todo o que pretendia com o post, mas apenas relatar a minha experiência com a visita, publicitar a iniciativa, e deixar o ponto de vista de alguma coisa.
Que só refira que estive com ela, a autora, sim, eu e mais umas duas dezenas de visitantes que, tal como eu, não tiveram certamente nenhuma epifania pelo facto. Apenas aproveitei a visita, aprendi alguma coisa e descrevi aqui a experiência, de forma subtil e mínima, é certo, mas suficiente para um post deste teor. Lamento que o post não tenha alcançado a expectativa do fabuloso título.
A obra que escolhi para comentar foi de circunstância para poder fazer ligação ao assunto seguinte, da interpretação. Se a própria Graça Morais a escolheu para dar o exemplo da aleatoriedade de composição da pintura, talvez lhe devesses mostrar o panfleto. Eu desconhecia o conteúdo do dito, mas não ia basear o post nele.
Sobre a interpretação de obras, ou a tentativa de, que tipo de conclusão esperavas? Não tenho a solução para o assunto, apenas descrevi a minha opinião sobre o tema e dei as minhas razões. A subjectividade do assunto não deixa lugar a conclusões, apenas a discussões, um dos objectivos destes posts.
Se tiveres alguma nova luz sobre o assunto, partilha, porque criticar é fácil, mas apresentar argumentos, já é mais chato.
O patrocínio do banco…Sim, tenho a vaga ideia que existem entidades que patrocinam eventos culturais, exposições, e tantas outras coisas que não devo saber soletrar - ainda mais no Estado anti-cultural que temos, em que a necessidade de apoios externos é extrema -, mas o que contesto, e que entenderias se lesses com atenção, é a forma como exigem (ou como lhes permitem) as contrapartidas desses patrocínios. Existem milhentas formas de publicitar o mecenas/patrocinador de um evento/instituição, mas abomino megalomanias que desrespeitam o património cultural e violam a sua integridade estética original.