Ontem de manhã, ao pesquisar por alguma informação extra sobre o programa Prós & Contras de Segunda-Feira, encontrei alguns comentários ao mesmo, feitos em blogs nacionais. Alguns prós, e muitos contras, surpreendentemente, embora os argumentos, claramente, não cheguem ao nível dos apresentados ontem por alguns convidados do programa.
O programa foi fantástico.
Uma professora universitária que desintegrou a minha ideia de que a educação superior, pelo menos, deveria dar alguma flexibilidade em argumentação ou, na pior das hipóteses, alguma humildade e inteligência e fazer com que o cérebro envie mensagens atempadas à boca para que se feche quando o assunto não é de todo do conhecimento.
Um advogado que não sabe soletrar as palavras educação e cordialidade, quando mais honrá-las.
Mais há mais. Tanto.
Para quem não viu o programa, lamento mas não vou descrever com pormenor o que por lá se passou, já que escapa ao propósito deste post. Digamos apenas que foi uma parada de estrelas, de má informação, de má educação, de estupidez, do melhor, portanto.
Vamos por partes:
Fátima Bonifácio
Sou seu fã. Espero que participe mais vezes em debates públicos, e já agora que escreva também, que gostava imenso de saber se consegue ser tão inconveniente, mal informada e completamente ridícula noutros formatos. Propiciou-nos um espectáculo digno das melhores produções de ficção nacional.
Alguns argumentos:
As crianças não deviam ir aos restaurantes de qualquer forma, porque incomodam os adultos. - Mas a maior parte delas consegue ter mais lógica no discurso que a senhora professora.
A mania que anda por aí de termos vidas saudáveis com exercício, refeições regradas, e que ninguém a pode obrigar a tal coisa. - Realmente, que vulgaridade e arrogância por parte desses activistas da saúde, quererem sugerir vidas saudáveis. Ordinários.
A DGS não está preocupada com a saúde, mas sim com a economia - Neste ponto o seu argumento foi deitado por terra com factos. Como foi dito: o estado, ao fazer uma cruzada contra o tabaco, vai perder no imposto sobre esse artigo, que não é pouco. Por outro lado, o que não é gasto pelas famílias em tabaco, entra no seu rendimento familiar. Todos concordam que se gastam estúpidas somas em tabaco. Ainda por outro lado, se o estado, ao preocupar-se com a economia, está a cuidar da minha saúde, quem sou eu para impedir.
Sá Fernandes
Enfim. Sujeitinho irritante, incontrolável e terrivelmente rude e mal-educado. Tenta fazer ver o seu ponto de vista tomando conta de toda a discussão com as constantes interrupções e falta de respeito. E certamente nunca apontou o dedo a alguém que não gosta que lhe apontem o dedo, ou na Segunda-Feira estava a apontar com o nariz. Ou como dizem que há homens que compram carros grandes para compensar a falta de comprimento noutras áreas, talvez o seu dedo simbolize o seu proverbial carro grande. É óbvio que tentava compensar a falta de alguma coisa.
Francisco George
Antes do comentário: Não tenho qualquer cor política, apetência por cabelos brancos ou políticos em geral.
Personagem aparentemente culta, com um argumento totalmente presente que colocou na sombra por completo os seus dois interlocutores. O que não abona muito em seu favor, é certo, visto que os dois “adversários” deixavam muito a desejar em competências sociais, verbais, de coerência e de debate.
Combateu todos os ataques com calma, inteligência e educação, deixando, a certa altura do debate, a senhora que referi acima, completamente sem argumentos. Fê-lo com dignidade, respeito e com factos, algo que faltava a muitas pessoas presentes no debate. E, já agora, que falta a muito boa gente que anda por aí de poupa ao vento a pregar o que não sabe.
Constantino Sakellarides
Fiquei admirado com a presença deste senhor. Não sigo muito a vida política, não o conhecia, e até pode ter incompetências em algum outro lugar, mas no debate de ontem mostrou uma presença de espírito e intelectual extremamente invulgar. Ainda mais com o fogo cruzado ridículo que acontecia ao seu redor.
Teve momentos brilhantes de esclarecimento de situações um pouco mais complexas (complexas para o QI de 27 dos outros interlocutores) recorrendo a analogias simples, e sempre mantendo uma postura exemplar de monumental luva branca para com as outras pessoas da sala.
Fátima Campos Ferreira (” a senhora da lenha”)
Não estava lá para esclarecer ou fazer esclarecer, mas sim para constantemente atirar achas para novas discussões. Na minha ignorância, imaginava que como jornalista estaria lá para manter o debate na faixa da seriedade e, conceito novo, ser imparcial na condução do programa.
Debate
Ouviu-se de tudo. Muito mais do que eu esperaria de pessoas supostamente cultas e informadas. Uma outra personagem de relevância foi o senhor dos casinos, do qual não me recordo do nome e sou demasiado preguiçoso para pesquisar. Tinha muito bem presentes os artigos e contra artigos que lhe dizem respeito, assim como aparentemente não faltou ao respeito a ninguém.
Direito do fumador
Muito bem, temos direitos, mas também temos obrigações. Por exemplo, obrigações para com terceiros de não atentar contra a sua saúde involuntariamente, ou voluntariamente. Estamos a falar de um acto prejudicial à saúde, acho que não há dúvidas neste ponto, ou há? Fumar faz mal. Quem quiser fuma, pode decidir pela sua saúde e morrer encardido pelo seu próprio fumo, mas não pode expôr outras pessoas ao seu mal. Não se trata de, quem não quiser fumar ou levar com fumo, se ter de retirar para que os prevaricadores (quem fuma) possam usufruir da sua dita liberdade.
“A liberdade dos fumadores termina onde começa a saúde dos outros”, entendido? Eu não fumo, frequento espaços públicos e odeio levar com o fumo dos outros. Seja a almoçar, seja a passear por um shopping. Entendo que o argumento de que me incomoda não é suficiente, também me incomodam idiotas e há-os em abundância, não há que fazer sobre isso, mas os idiotas, ao contrário do fumo, não me fazem mal à saúde. Pelo menos não da mesma forma.
Haveria imensas mais coisas a dizer, mas já atrasei o post tempo demais. Vai ficar como está e talvez num outro post futuro eu tenha vontade de lavar mais roupa.
Fica a imagem de capa com mais pormenor. É um tecto pintado para uma zona de fumadores:


Dou de barato que o debate não foi o que seria de esperar, mas por amor ao demiurgo, este post parece querer dar apoio a uma lei completamente insustentável do ponto de vista ético.
A questão que se poe é a impossibilidade de escolha. Quando um fumador se encontra fisicamente incomodade com o ambiente desinfectado que querem impor não tem escolha.
Todos, fumadores e não fumadores, bateram-se pela possibilidade de escolha. Os não fumadores reclamaram o seu direito e obtiveram-no, salas desinfectadas. Agora que o conseguiram revelam a sua verdadeira natureza querendo subtrair o direito dos fumadores a ter salas próprias. Isso parece uma doença. A vontade do não fumador é OBRIGAR o fumador a não ter onde fumar. É isso que está em causa.
Desde sempre me coibi de fumar em restaurantes e cafés, isto é o respeito do fumador para com o não fumador. Quando me sentia incomodado pelo perfume fedorento da velhinha não lhe pedia para para que ela fumasse um bocadinho e até “não fumava” para não a incomodar. è essa a assimetria, agora que os não fumadores mostram a sua verdadeira natureza intolerante mesmo em relação a espaços que não frequentam. Dai a “guerra” infelizmente.
Trata-se de uma situação em que não pode haver tréguas, os fumadores hoje não suportam os doentes desinfectados, querem-nos bem longe.
Nunca mais vou apagar um cigarro porque estou a incomodar alguem, se não querem fumar recolham-se nos buraquitos que a lei lhes deu. As esplanadas, as praias, os parques especialmente no verão são dos não fumadores, devia ser mesmo interdita a permanencia de não fumadores para defesa da sua frágil saude.
Acho piada falarem em o fumador se sentir incomodado com a impossibilidade de escolha.
O que está em causa não é o obrigar o fumador a não ter onde fumar, mas de o obrigar a fazê-lo onde o acto não atente à saúde dos restantes presentes. É difícil de entender?
Os espaços livres são imensos, precisas de mais espaço onde podes atentar contra a tua saúde?
Do que te queixas não é da falta de espaço onde fumar, mas da comodidade onde o podes fazer. Se essa comodidade entra em conflito com o bem-estar de outros (com a saúde, entenda-se, o bem-estar é relativo e podes debater pelo dos fumadores), então sim, obviamente sou da opinião que devem vagar tais locais, para fumar, e regressar se assim o pretenderem. Salas próprias para vocês? Mas claro, onde possam usufruir do vosso vício, mas sem incomodar ninguém.
Espaços que o não fumador não frequenta. Dá exemplos, por favor.
Não tenho qualquer tipo de discriminação para com os fumadores, e muitos de vocês agarram-se a esse argumento dizendo que são umas vítimas, discriminados e violentados. Coitados. A discriminação é para com o fumo. E os prevaricadores são vocês, eu não fumando não vos incomodo, causo (potencialmente) a doença, ou faço chegar a casa a cheirar a frango do churrasco. Vocês, por outro lado, conseguem fazer-me tudo isso.
Achas que o facto de te coibires de fumar em restaurantes faz de ti uma boa pessoa? É a tua obrigação! Isso é ser normal, decente, como todos deveríamos ser, embora tenha de admitir que no mundo que temos, a pessoa com um pouco de civismo já está a fazer mais do que a média, quando na realidade está a fazer apenas a sua obrigação, nada de extraordinário. Se vais deixar de o fazer, de deixar de fumar apesar de sentires que estás a incomodar alguém, perdes a moral de falar de ética ou civismo.
Quanto às velhinhas com perfumes fedorentos, não as há em tão grande número quanto fumadores, incomodam menos, e não há estatísticas de mortes/doenças por inalação secundária de perfume foleiro.
E deixa o demiurgo sossegado, embora o assunto do post (o fumo) consiga popular mais rapidamente o seu domínio.
Queria poder traduzir o quanto eu ri lendo o texto e os comentários…
Quanto ao cigarro, é um absurdo realmente ter que ficar na fila pro ônibus e o desgraçado à sua frente resolve acender aquela porcaria. Você, não disfarçando o desagrado, começa a tossir, tentando expelir a fumaça fedorenta, mas o maldito não pára, parece até que calcula a direção do vento para que a fumaça chegue em cheio na sua cara. Então, sim, eu apóio totalmente uma lei que proíba o fumo em lugares públicos. Se a pessoa quer fumar, fume na sua própria casa, deixe fedidos seus próprios pertences, mate seu próprio cachorro (coitado, não merece, mas o que se há de fazer?), não encha o saco alheio.
E só por curiosidade, o que seria um demiurgo?
Eles andam em todo o lado. Por vezes fico até com a ideia que sabem que fui eu que escrevi este post e secretamente me seguem para me atormentar. Até, como dizes, parecem saber o sabor do vento e fazem com que leve sempre com o fumo na tromba.
Não ia tão longe quanto os deixar matar o seu próprio cão, mas convenhamos, o cão bem pode morder o dono fumador, e até pode ser desculpado por o fazer se o souber fazer atempada e calculadamente. Nós, no entanto, normalmente podemos ir passar uma noite à cadeia por mordermos um ou outro fumador. Se bem que nem os dentes lhes deitava.
Demiurgo significa criador do universo.
ah, muito boa a foto do teto…faltava só uma terrinha sendo jogada pra cima.